Eu preciso de pessoas que me façam calar a boca.

Eu falo muito por aí. Falo das piadas de ouvi (com ou sem graça). Aliás, prefiro as sem graça, é melhor rir do ridículo, e a maioria em tom sarcástico. Falo em outras línguas. Falo com um sotaque mistureba estranho. Falo sobre como sou um clichê ambulante. Falo com pessoas que me pagam bebidas que não bebo, em bares. Falo com o editorial da Folha sobre os erros que encontro. Falo 50 minutos por semana com um psicólogo. Falo para o namorado aquilo que sei que ele quer ouvir. Falo muito bem em reuniões e situações corporativas (consigo o emprego). Falo, bêbada, para esconderem meu celular. Falo sobre amenidades em elevadores. Falo para a mulher da Vivo que vou continuar pagando caro, porque não quero promoções. Falo sobre assuntos polêmicos e tendo a ser intolerante com opiniões que considero idiotas. Falo com meu ex-chefe, frequentemente. Falo com o segurança da balada e furo a fila. Falo com meus amigo sobre escolhas erradas, indecisões e problemas comuns de relacionamentos. Falo de maneira simpática com servidores públicos e vendedores, e consigo bons descontos e prazos menores. Falo com amigos de infância, mas acho que não temos nada em comum. Falo que não quero a Nota Fiscal Paulista, para a mulher do caixa, no supermercado. Falo com meus ex-namorados como se não os conhecesse direito (provavelmente não conheço, mesmo). Falo “oi, tudo bem?” para o porteiro toda vez que passo. Falo pacientemente com meus avós. Falo chorando e acho que as pessoas entendem. Falo durante filmes. Falo comigo mesma.

Eu preciso de pessoas que me façam calar a boca.

A exposição é minha, o voyeurismo é seu.

O voyeur gosta de observar. Não entendo o auto-controle para ansiar por algo, esperando movimentos sem fazer nada. Não consigo não agir, eu preciso correr, escrever.  Sou a contrapartida nua vulnerável à mercê dos seus olhares frios e atentos, voyeurs. É  assim que vocês lêem este blog. Cada palavra é uma peça de roupa que tiro, até que eu também arranque minha pele e fique em carne-viva, tão vermelha como os esmaltes que costumo usar.